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O conceito de moral da ambigüidade em Simone de Beauvoi

 

Eberson Luís da Mota Teixeira *

 

Queremos a liberdade pela liberdade e através de cada circunstância particular. E, ao querermos a liberdade descobrimos que ela depende inteiramente da liberdade dos outros, e que a liberdade dos outros depende da nossa. Sem dúvida, a liberdade como definição do homem não depende de outrem, mas, uma vez que existe a ligação de um compromisso, sou obrigado a querer ao mesmo tempo a minha liberdade e a liberdade dos outros; só posso tomar a minha liberdade como um fim.” (Sartre. Pg. 26).

 

Frente ao tema, a primeira pergunta que nos surge é: o que é a moral?

A moral pode ser entendida como: “ciência do bem e do mal, teoria do comportamento humano enquanto regido por princípios éticos (varia de cultura para cultura e se modifica com o tempo no âmbito de uma mesma sociedade); corpo de preceitos e regras que visa dirigir as ações do homem, segundo a justiça e a equidade natural; disposições para agir bem, a respeito de si próprio e a respeito dos outros, na comunidade humana”. (LAROUSSE).

Como surgiu a ética dentro do conceito de moral exposto acima, vamos entender está como: “A parte da filosofia que aborda os fundamentos da moral. Aquilo que concerne à organização das relações sociais em oposição à moralidade que enuncia os princípios da ação individual”. (LAROUSSE).

A reminiscência teórica da palavra moral vem do latim “mos, moris, moralis” que significa, pois, uma maneira de se comportar de acordo aos costumes aceitos por uma comunidade, grupo social (dominante) ou sociedade em que está se expressa. Por isso, a moral liga-se a uma idéia instrumental e preceitual, donde age bem; quem se comporta “pari passu” – simultaneamente - às regras do meio social.

Já a ética - é uma digressão da palavra grega “ethos” - e que procura refletir acerca desta noção, regra e princípios aceitos pela maioria. Por isso mesmo, a ética recorre à razão para fundamentar o seu entendimento a respeito da moral e - não obstante - tem um apelo mais universal (porque analisa como a moral se comporta, ou melhor, como esta se mostra na historicidade do humano) em detrimento da moral que se revela no recinto do pessoal.

 

 

Feitas essas primeiras distinções a título de esclarecimento de alguns conceitos prévios, vamos à conceituação da ambigüidade. Que é essa?

A palavra ambigüidade é uma corruptela do “latim ambiguitas; presente na poesia; pluralidade de sentidos; incerteza; dúvida; perplexidade; equívoco, obscuridade, ininteligibilidade. Em filos: dualidade profunda de um termo, de uma proposição ou de uma situação. Categoria primeira de o homem ser no mundo para o mundo (no existencialismo contemporâneo, particularmente no de Simone de Beauvoir e de Merleau Ponty); que pode ser tomado em mais de um sentido – duas naturezas diferentes. Em Kant: forma particular de equívoco, que consiste em reportar à mesma faculdade os objetos próprios de duas faculdades diferentes”. (LAROUSSE).

Ao exposto acima cabe distinguir que não poderemos confundir a ambigüidade com o significado de ambivalência – tomada esta – como: “caráter daquilo que possui dois aspectos radicalmente diferentes, opostos até. Disposição psíquica de um sujeito que experimenta ou manifesta simultaneamente dois sentimentos, duas atitudes opostas em relação a um mesmo objeto, a uma mesma situação (p.ex: amor e ódio, desejo e temor, afirmação e negação)”. (LAROUSSE).

Realizadas essas diferenciações e explicações preliminares, vamos ao que seria a moral da ambigüidade na autora feminista – existencialista – atéia, ou seja, em Simone de Beauvoir.

Segundo a teoria existencialista exposta por Simone. “A noção da moral da ambigüidade não se confunde com a de absurdo”. (Pg.109). O absurdo nesse contexto deve ser entendido e, é identificado com uma representação mental, na qual a condição do homem no mundo seria sem sentido, sem razão de ser. Essa noção de absurdo surge frente ao pensamento existencialista, porque segundo alguns críticos (identificados com a moral vigente) e contrários a moral existencialista, donde o homem estaria relegado ao desamparo e a um desespero. Vide: Estes pretendem “que o existencialismo seja uma filosofia do absurdo e do desespero, que ela aprisione o homem numa angústia estéril, numa subjetividade vazia, que ela seja incapaz de lhe oferecer algum princípio de escolha: que ele aja como agir a partida está perdida’. (Pg.06). Segundo esta noção o homem poderia fazer o que quisesse. Destarte, com essa interpretação da existência do homem, em que este; estaria mergulhado em um “non-sense”, sem razão nenhuma que corroborasse seu existir no mundo. Perder-se-ia um importante predicado do ser que está arrolado à sua originalidade e em que surgirá como conseqüência imperativa de sua liberdade e de seu aparecimento no mundo.

À concepção de ambigüidade, de chofre, conota-nos que esta estaria subentendida a uma idéia de poder ser e não ser dependendo das situações que porventura surgissem na adversidade que caracteriza o viver humano sobre o mundo. O que perante a moral tradicional tida como judaico-cristã - que promete a vida eterna e costuma negar a vida presente – “para suprimir a ambigüidade tornando-a pura intencionalidade ou pura exterioridade, evadindo-se do mundo sensível ou mergulhado nele, elevando-se à eternidade ou fechando-se no instante puro”. (Pg.04) para esta moralidade a ambigüidade seria realmente um absurdo. Porém, a moral da ambigüidade é uma primícia demonstrativa da força pungente, no tocante a evidência do surgimento das antinomias, i.é (das “contradições entre duas proposições de significações opostas, mais especialmente, entre duas idéias gerais (ou abstrações) tiradas da realidade. Sin. Oposição. Contradição que surge no interior de uma teoria ou no decurso de um raciocínio. Sin. Paradoxo”. (Larousse) que nos fazem ter consciência dessa e que “a ação deve ser vivida na sua verdade.” (Pg.110) no seu presente. Por isso, a autora explicita que “fracasso e sucesso são dois aspectos da realidade que não se distinguem à primeira vista”. (Pg.110).

Nesse viés interpretativo, a invectiva da idéia de absurdo para a moral da ambigüidade, não encontra eco, posto que a ambigüidade perlustra a condição do ser humano na mundanidade.

A essa ambigüidade será concedida um compromissamento do ser com sua realidade e com o outro, com seus projetos e seus empreendimentos, porque o ser humano “é” – tão certo quanto à ciência e a arte “são” – no momento em que estão se fazendo. A ciência e a arte não esperam a sua confirmação - de existir e criar - voltando os olhos (leia-se: resultados) para o futuro, muito pelo contrário; essas duas disciplinas ‘voltam os seus olhares sobre si mesmas’ e assim, perfazem-se no presente da construção. Entrementes, a razão (os juízos quantitativos e de precisão (exatidão)) poderiam exprimir o que é a moral ambígua e sua relação com o homem?

A razão ajuda-nos a entender que a ‘condição humana’, diferentemente da essência humana - que é apregoada por muitas correntes religiosas (catolicismo, budismo, hinduismo etc.) e que se baseiam na predefinição do ser do homem -, é melhor entendida sob a concepção existencialista do estar aí (Dasein) no mundo, e à tentativa de proferir o que o homem é, antes de adentrar neste mundo é vã, logo não há uma essência dada por uma transcendência (Deus), mas – ao que tudo indica – o que existe é o ser humano a partir do seu surgir no mundo (com suas idiossincrasias – estado social, político, cultural, econômico etc.) para dar significado a este mundo, às escolhas que fará, ao seu projeto, enfim, a sua verdade. “É preciso extrair a força de viver e as razões de agir do conhecimento das condições autênticas da nossa vida”. (Pg.05).

Eis, dessa maneira, o preâmbulo para começarmos a entender o que quer que seja esta moral existencialista. Assim, é salutar enunciar que “a moral da ambigüidade será uma moral que recuse negar a priori que existentes separados possam ao mesmo tempo estar ligados entre si, que suas liberdades singulares possam forjar leis válidas para todos”. (Pg.12-3).

Surge, pois, a dualidade como caracter indelével do ser humano. A existência do ser humano é finitude – limite – e é o seu projeto. E “é a singularidade do projeto que determina a limitação do poder; mas é ela também que dá ao projeto seu conteúdo e que lhe permite fundar-se” (Pg.22), logo o sentido impresso na existência do ser, não é um sentido acabado, posto ser uma condição situacional eminentemente dependente da dualidade no existir do homem. Não há, dessa forma, uma unicidade no projeto, visto que as imperfeições do humano não só negam esse projeto único, mas também na sua realização singular informam o que este é.

Existir, como exposto acima, é ir além do dado, é entender-se como em perpetua construção e como empreendimento inacabado. Empreendimento que pode ser enriquecido quando advindo o fracasso, pois este é um dos passos também para se chegar ao acerto, porque quando confirmamos a existência da dualidade, podemos construir novos significados, reconstruir os antigos, ou mesmo adotar as acepções vigentes para as coisas, os projetos e os empreendimentos que surgem deste movimento de dar sentido e ou (re)significar a realidade constitutiva da nossa adesão à vitória (ou o que entendemos ser esta) ou a derrota, a qual são aderidas pelas consciências humanas – “o mundo é consciência. E o homem se afirma como pura interioridade”. (Pg.03), surge, assim este “homem sujeito soberano e único em meio a um universo de objetos” (Pg.04) e que fundam a sua existência no presente. “A verdade de sua existência é que ele é nada”. (Pg.04). E somente neste nada – onde estarão abertas todas as possibilidades para serem escolhidas – é que encontramos o ser do homem.

E cito em conluio ao texto (moral da ambigüidade) que: “O homem existe. Não se trata, para ele, de perguntar se a sua presença no mundo é útil, se a vida vale a pena ser vivida: estas são perguntas despidas de sentido. Trata-se de saber se ele quer viver e em que condições”. (Pg.10), porque, “não há, antes da existência, razão de existir, nem tampouco de não existir”. (Pg.10). Eis um belo quadro exemplificativo do existencialismo ateísta em Simone de Beauvoir.

A vida humana, entretanto, deixa de ser uma consideração lacunar - um enigma posto pelo transcendental - moldado em uma parcialidade (religiosa), confirmado por um dogma (seja este a identificação do homem com Deus – sua imagem e semelhança – como cópia imperfeita deste divino) ou advinda da transitoriedade que caracteriza o humano, contudo deve esta – vida humana – assumir, ou melhor, “então encontrar no âmago de sua existência a exigência comum a todos os homens: é-lhe necessário querer a liberdade para si e universalmente, é-lhe necessário tentar conquistá-la. Á luz desse projeto, as situações se hierarquizam e se descobrem às razões para agir”. (Pg.67).

Cabe, pois, assumir uma atribuição de totalização na sua manifestação no mundo (ser, agir, construir) como um absoluto. Absoluto este, expresso no desejo, no desejo mais que desejo de preencher completamente essa lacuna (finitude, transitoriedade,) do ser humano como identidade que exige que cada ação humana seja uma forma (manifestativa) – “forma esta que não se identificará (justificará) no infinito, todavia na existência do ser aí, que acontece como presente dado – na visada de um futuro que se completa com/na sua verdade, posto que “nenhuma ação é concebível sem a afirmação soberana do futuro”. (Pg.98). Essa forma estará coadunada com o ‘nada’ do existencialismo, na qual é a manifestação das possibilidades do ser.

A moral da ambigüidade surge e pauta essas significações recusando-se a dar validade a toda ação presente que se verifique como meio e fim para o futuro que não tenha sua verdadeira validade valorativa no agora. “Temos, em primeiro lugar, que o indivíduo enquanto tal é um dos fins aos quais se deve destinar nossa ação”. (Pg.114).

Nesse sentido, expresso acima, é a energia pungente da liberdade como maneira positivada que confere ao movimento da moral esta força de confirmação, de resistência a todo dado. “A liberdade é a fonte de onde surgem todas as significações e todos os valores, é a condição original de qualquer justificação da existência”. (Pg.17)

A moralidade tradicional se espelha em uma situação que nos impõe a partir de um livro entendido como sagrado – concedido por um divino ou escrito por inspiração deste – orientar, conduzir e limitar, os passos, as situações insurgentes, as decisões do dia-a-dia sob o beneplácito deste transcendental (Deus) que é intermediado por seus representantes na terra (o Papa, o Iatolá, os Cardeais, padres etc.). Não há nesta moral tradicional um “olhar” apurado – critico – para traduzir o porquê de seguir tal ou qual conduta. Este tipo de moral (p.ex: católica), quando questionada sobre seus princípios (bases teológicas) tenta nos subjugar com explicações forjadas em um ente transcendental, em “iluminações súbitas”, ou mesmo em explicações divinatórias, revelatórias e/ou punitivas (excomunhões). Por isso, Simone expõe que “não há maneira mais odiosa de punir um homem do que obrigá-lo a atos aos quais se recusa seu sentido. Ex: encher e esvaziar um poço”. (Pg.23). E por isso mesmo, a moral tradicional é “esta visão impessoal que iguala todas as situações, não as apreende senão na indiferença de suas diferenças e exclui qualquer preferência”. (Pg.64).

A moral da ambigüidade não tem como ‘norte’ seguir qualquer código religioso (Bíblia, Alcorão, Vedas etc.) em voga na sociedade em que pertençam, porém esta se pergunta - se é necessário ou não - realizar tal e qual ação em virtude das condições que assolam as ações. Pois, “uma das conseqüências concretas da moral existencialista é a recusa de todas as justificações prévias que se poderiam tirar da civilização, da idade, da cultura – é a recusa de qualquer princípio de autoridade”. (Pg.121). Por conseguinte, “o valor de um ato não está na sua conformidade a um modelo exterior, mas na sua verdade interior”. (Pg.117). E na seqüência, Simone de Beauvoir, se apropria de uma máxima kantiana para demonstrar que “o homem é homem através de situações cuja singularidade é precisamente um fato universal”. (Pg.123).

A moral – no sentido conferido por Beauvoir – não é, um receituário à moda das religiões a ser seguido indiscutivelmente. Ela deve estar voltada, para o que o ser tem a pronunciar sobre sua vida, sobre sua relação com a alteridade, sobre sua autenticidade na vida e, nesse contexto, desvelar os seus caminhos como necessários para se atingir determinados fins (ou seja, ela – a moral – deve estar identificada com uma verdade situacional e não ser moldada através de dogmas, preceitos, encíclicas hauridas ou não em livros sagrados, processos mágicos ou místicos que se identificam muito mais com uma ‘moral do rebanho’ – conceito Nietzscheano - (que é, em linhas gerais, a chamada manipulação, onde o "poder do povo" não existe, porque ela vige politicamente, pois em todo rebanho há manipulação. O que há são relações das forças em que ou se domina ou se é dominado), logo todos devem seguir sob pena de sanções da coletividade.

A moral existencialista estudada deve ser “também útil ao homem de ação investigar em que condições seus empreendimentos são válidos”. (Pg.114). Deste modo, o fim de uma ação moral para Simone - parece ser - não o código, a lei, a norma (aceita indiscutivelmente por um coletivo), todavia deve estar voltada ao indivíduo. Não um indivíduo aprisionado ou como representante de uma categoria, de um ‘status quo’, contudo como um universal além do homem representado por uma humanidade que não deve estar mancomunada com um ‘espírito de seriedade’ que subsidia o homem inautêntico, porque é este (homem inautêntico) que se degrada vivendo de acordo com verdades e normas dadas, e que o faz mergulhar em um anonimato, que anula qualquer sentimento original para sua existência, para as possibilidades de se fazer e se renovar. Destarte, parafraseio Simone: “Se o homem sério acha-se separado de seus fins, sua vida perde todo sentido”. (Pg.43). Essa idéia da moral existencialista é tão vanguardista, que os críticos (aqueles identificados com a moral vigente e partícipes do ‘espírito de seriedade’) apregoam que: o existencialismo seja uma filosofia do absurdo e do desespero.

Tornemos, assim, a temas que interagem com a moral da ambigüidade, sendo a liberdade e a existência. Querer o homem livre é querer o ser, é desvendar e dar respostas a seu ato de existir, no plano individual que se manifesta em cada instante, dessa forma, tudo que envolve o ser deve dar sentido e fundamentar o humano. Por isso, “a moral é o triunfo da liberdade sobre a facticidade, e o subhomem não realiza senão a facticidade de sua existência; em lugar de engrandecer o reino humano, opõe aos projetos dos outros homens sua resistência inerte”. (Pg.37).

Em contrapartida “Hegel pretendeu não recusar qualquer aspectos da condição do homem, conciliando-os a todos. Segundo seu sistema, o instante se conserva no desenvolvimento do tempo, a Natureza se afirma em face do Espírito que a nega ao instaurá-la, o indivíduo se reencontra na coletividade em cujo seio ele se perde e a morte de cada homem se realiza anulando-se na Vida da Humanidade”. (Pg.04).

Lembremo-nos, mais uma vez, que a concepção de ambigüidade não rima com a de absurdo e não proseia com o ‘non-sense’, daí a nossa dificuldade em extrair um conceito hermético da moral posto que: “o existencialismo definiu-se desde o início como uma filosofia da ambigüidade”. (Pg.05).

Poderíamos propagar mesmo - de forma reducionista - que a ambigüidade do existencialismo é uma opinião contrária à opinião comum (vulgar). A moral deve, assim, dar respostas (sentido e significações) às manifestações do ser humano no seu palmilhar pelo mundo e pela vida. Destarte, nossa atitude de alegria, riso, amor consigo mesmo e com a alteridade (o outro) devem justificar esta vida de que falamos. “Apesar de tantas mentiras obstinadas, a cada instante, em toda ocasião, a verdade se manifesta: a verdade da vida e da morte, da minha solidão e da minha ligação com o mundo, da minha liberdade e da minha servidão, da insignificância e da soberana importância de cada homem e de todos os homens”. (Pg.05).

A ambigüidade surge na liberdade questionando a relação com o outro, e como se manifesta esta utilidade relacional com a alteridade - nos valores dados pela sociedade - que se transformam em valores da vida. Não há que, pois, submeter-se a vida a uma moral dada – abstrata – posto que não passando antes pelo homem, não conseguem por si mesma definir a ação, senão quando este (homem), já esteja no mundo.

Simone tenta, dessa forma salutar, salvar a liberdade e a autenticidade da ação quando: “ao exercê-la, assumo, de bom grado ou mau grado, um compromisso em relação ao outro e a mim mesmo”. (Pg.116). Somente neste compromisso posso impedir o outro de certas arbitrariedades, porque: “o amor autoriza severidades que são permitidas à indiferença”. (Pg.117). Aqui, a liberdade assume um compromisso melhor expresso a seguir:

 

Nós não temos que respeitar a liberdade senão quando ela se destina à liberdade, não quando se desvia, foge e se demite de si mesma. Uma liberdade que não tem como objeto senão negar a liberdade deve ser negada. E não é verdade que o reconhecimento da liberdade do outro limite minha própria liberdade: ser livre não é ter o poder de fazer não importa o quê, é poder ultrapassar o dado para um futuro aberto. A existência do outro, na medida em que é liberdade, define minha situação e é ela mesma a condição da minha própria liberdade”. (Pg.77), bem como ao solipcismo, sendo este a “concepção segundo a qual o eu individual, de que se tem consciência, com suas modificações subjetivas, constitui a única realidade existente de que se tem certeza”. (LAROUSSE). A essa idéia solipcista, vejamos o trecho a seguir:

 

Os que pretendem assimilar o existencialismo a um solipcismo que exaltaria, como Nietzsche, unicamente a vontade de poder. Segundo essa interpretação, tão difundida quanto errônea, o indivíduo, conhecendo-se e escolhendo-se como criador de seus próprios valores, buscaria impô-los aos outros. Disso resultaria um conflito de vontades adversas, fechadas em sua solidão. Mas vimos, ao contrário, que, na medida em que o espírito da aventura, a paixão, o orgulho conduzem a essa tirania e a esses conflitos, a moral existencialista os condena; e o faz; não em nome de uma lei abstrata, mas porque, se é verdade que todo projeto emana de uma subjetividade, é verdade também que esse movimento subjetivo coloca por si mesmo uma superação da subjetividade. O homem não pode encontrar senão na existência dos outros homens uma justificação de sua própria existência... A preocupação moral não vem de fora do homem, ele encontra em si mesmo esta pergunta ansiosa: para quê... Eu digo respeito aos outros e eles dizem respeito a mim, eis aí uma verdade indestrutível: a relação eu – outro é tão indissolúvel quanto a relação sujeito – objeto”. (Pg.60-1).

 

Entendemos, por isso, que assumir um (o) compromisso com o outro (alteridade) é também permitir que o homem erre, visto que errar é humano, e o erro faz parte, e é, um atributo de sua condição, posto que nesta condição de erro esteja a experiência que validará ou não este compromisso. Visto que, a liberdade é este realizar-se, enquanto inserido no presente, no já explicitado engajamento - no mundo. De tal maneira que um compromisso, assim como um projeto para a liberdade se encarne em condutas que visam o outro - tão certo quanto - nisso esteja o valor promulgado de um ato, que não tenha simplesmente sua conformidade com um modelo exterior (baseado no consenso), mas paute-se e manifeste-se como identificação a uma verdade interior, é aí, que a experiência e a liberdade assumem o horizonte das condições fundantes e fundamentais. Podemos observar que a essa idéia inicial de um solipcismo Kant escapa, “porque para ele a realidade autêntica é a pessoa humana na medida em que transcende sua encarnação empírica, escolhendo ser universal”. (Pg.12). Logo, Simone mostra-se uma ferrenha contradita, de toda moral abstrata que censura a moral da ambigüidade existencialista pelo fato - desta - não propor ao ato moral (a priori) nenhum conteúdo objetivo.

Em realidade, a moral existencialista da ambigüidade demonstra a responsabilidade do homem pelo mundo, leia-se: como obra dele mesmo e subjuga todo paternalismo, bem como toda subjetividade que se quer soberana a outra. Com isso, a essa atitude de conformidade do homem ao exterior (moral vigente) é necessário possibilitar a racionalização (o questionamento através da razão) deste conformismo e de suas respostas que se baseiam em fontes abstratas – transcendentais – para o construir das respostas e, por fim, da felicidade do/no homem.

A esse sentido de construção da felicidade subleva-se o respeito imperativo (im)posto pelo existencialismo à liberdade do outro como autêntica, ou seja, somente quem possui liberdade e consciência desta como um atributo imanente do humano pode ser “competente para decidir de suas esperanças e da sua confiança”. (Pg.119). Não obstante, “é por isso que nenhuma questão moral se coloca para a criança, enquanto ela é incapaz de se reconhecer no passado, de se prever no futuro; é somente quando os momentos de sua vida começam a organizar-se em conduta que ela pode decidir e escolher”. (Pg.20). Nesse mesmo sentido: “A criança escapa normalmente à angústia da liberdade”. (Pg.31), porque esta repousa ainda sobre um sentimento de irresponsabilidade. Tal situação só começara a se modificar a partir da “crise da adolescência: onde o indivíduo deve, enfim assumir a sua subjetividade”. (Pg.33). É essa a diferença fundamental entre a criança e o homem, e entre este e o ente (coisa). O ente não é consultado acerca do seu agir, e do seu (hipoteticamente falando) poder vir a ser no mundo, pois o ente é, pleno, completo. Diferentemente de a relação ser humano - ser humano, quando necessidade, desejos e ações são (podem ser) consultados sob pena de esbarrar-se nos desejos e ações da alteridade, pois o ser humano (na corrente do existencialismo) vive em relação-com.

Dessa maneira, podemos entender em um primeiro momento que o bem de um indivíduo (ou melhor, o que este elegeu como um bem para si, ou de um grupo) pode ser tomado como um fim autêntico para uma ação. Mas não podemos decidir ‘a priori’ (hipoteticamente) acerca desse bem, sem a experimentação, sem o nosso compromisso com a autenticidade do compromisso, e sem a relação com o outro. O que o existencialismo de Simone de Beauvoir nos quer expor, é que somente ‘a posteriori’, ou seja, na experiência relacional (eu-alteridade-eu) que, em princípio adotaremos alguma conduta em relação ao outro. Eis aí, o sentido de compromisso com o outro que pode ser encontrado (disseminado) e fundamentando a moral da ambigüidade em Simone.

 

Para dizer a verdade, não somos jamais autorizados, em princípio, a adotar alguma conduta, uma das conseqüências concretas da moral existencialista, é a recusa de todas as justificações prévias que se poderiam tirar das civilizações, da idade, da cultura – é a recusa de qualquer princípio de autoridade. Positivamente, o preceito será tratar o outro (na medida em que ele é o único interessado, o que é o momento que consideramos agora) como uma liberdade afim de sua própria liberdade”. (Pg.121).

Assim, a dificuldade que temos em conceituar - exatamente o que é - a moral da ambigüidade no pensamento de Simone de Beauvoir, é que, em cada caso, na singularidade do ser humano, individualmente, pode, ou melhor, deve ser inventada (desvelado) uma solução inédita, sem precedentes que se conduza pelo exterior (instituições políticas, moral religiosa, família etc.) deste universo do humano. Porquanto, aquilo que caracteriza o homem (no sentido ingerente do existencialismo) é a liberdade – e que, como na antiga Tebas (cidade da Grécia clássica) possuía cem portas de entrada e saída.

Entender o outro nessa perspectiva, as razões de seus atos de alegria ou de angústias, bem como, em casos iminentemente de perigo onde teríamos a possibilidade de lhe salvar a vida, ou ceder aos seus caprichos. São situações periódicas que surgem no ser humano, em vista de suas multiplicidades no pensar, no agir, e em questões que reclamam algumas inquietações no homem como. P. Ex: Deus, moral, vida. E que requerem discernimento e desenvoltura para compreender que na visão do existencialismo: “a liberdade de um homem interessa quase sempre a de outros indivíduos”. (Pg.122) – este é um ponto controverso em Simone, pois a autora não faz uma “ponte” – um ligamento de idéias - para com o sentido de compromisso que ela vem desenvolvendo. Sob a nossa ótica, ela, dá um “salto”, ou seja, vai além do dado construído na relação eu-alteridade-compromisso. O que significa dizer que Simone compreendeu muito mais do que argumentou para com esta relação de compromisso (solidariedade com o outro). Nesse ínterim, um ato de generosidade no sentido genérico que é dado quando um ser humano se relaciona com o outro, parece criar ou reavivar laços de humanismo (benevolência, compaixão, complacência) e afetividade, no qual seja cada vez mais válido, quando nós perdemos nossas idiossincrasias (gerada pelo meio social, político ou familiar) e nos tomarmos como fim, porque para Simone de Beauvoir: “é isso que se produz se estou engajado em relação ao outro”. (Pg.122).

Entendemos ser essa idéia de (humanismo e afetividade gerada pelo compromisso assumido pelo ser humano em face do outro) de difícil compreensão e execução, porque depois do - cogito ergo sun – (Descartes), e do capitalismo como sistema imperante e infringente nas relações dos homens. Perdemos nossa (pretensa) unidade com o todo (cosmo) e a partir disso, nos arriscamos em expor que toda subjetividade é expressão radical do eu-mesmo descarteano, donde surgiu o dualismo psicofísico (corpo - mente, eu - mundo) infundindo uma separação espelhada na relação eu - outro.

Cada visão de mundo (cosmovisão) influencia grandemente na relação dos seres humanos com o mundo e entre si. E a moral, é um desses fatores que são fortemente influenciados por esses primeiros ‘passos’ para explicar este relacionar do mundo humano.

Observemos a título de exemplificação a corrente que ficou conhecida como estoicismo, e que teve em Zenão de Cítio (Filósofo Grego) um de seus representantes mais diletos. Estes estóicos recusavam algumas relações no ser humano como, por exemplo, as que se desenvolvem através dos “laços de família, de amizade, de nacionalidade, para só reconhecer a figura universal do homem”. (Pg.122-3). Nossa autora rebusca este entendimento do estoicismo para quem a felicidade consiste em viver de acordo com a ordem universal - Logos (no sentido grego: razão) permanecendo indiferente aos males, que não passam de aspectos isolados de todo racional.

O estoicismo professa um materialismo panteísta, afirmando que toda a realidade é material, logo distingue a matéria propriamente dita, passiva, e o princípio animador ou agente, sendo este denominado de Deus ou razão, é tido como uma parte de matéria subtil ou de um fogo animador do todo. A alma está identificada com este princípio divino, como parte de um todo ao qual pertence. Neste ponto de vista metafísico estão implícitas duas consequências êticas: a grande importância que a máxima «viver conforme a natureza» teve no tempo do desenvolvimento do conceito de lei natural na jurisprudência romana, e a doutrina fatalista de que tudo o que acontece está conforme a ordem divina. Não obstante, a ética estóica não brota de nenhuma teoria metafísica, mas sim do ideal prático proclamado já pelo cinismo: o homem sábio não apreende o seu verdadeiro bem nos objectos externos, mas sim no estado da própria alma, sabedoria pela qual se vê livre das paixões e desejos que pertubam a vida. O homem sábio e virtuoso é indiferente a todas as coisas exteriores. Este rígido dualismo foi cedendo gradualmente, pela introdução de novas distinções, graças às quais foi possível, ao estóico, adaptar-se às duras necessidades do ambiente. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Estoicismo).

Viver de acordo com a razão significa desviar-se das paixões, que são as perturbações da razão. Se o mundo é regido por uma Providência racional, o importante é que cada um se reconheça como parte dela, aceitando impassivelmente (sem paixão) a sua condição. Nisso consistiria a liberdade, e é por esse motivo que o homem pode ser livre mesmo quando escravo. “Ausência de paixão, ataraxia – serenidade de ânimo, tranqüilidade, calma – este é o ideal dos estóicos”. (Os Pensadores. Pg.76) E que se acasala à idéia existencialista de Beauvoir em que “o homem é homem através de situações cuja singularidade é precisamente um fato universal”. (Pg.123). Por conseguinte, não é apenas valorizar o ente humano abstrato (como visto no estoicismo ou nas doutrinas religiosas) desvinculado de seu meio (existência), mas – sobretudo - ter uma moral é afirmar através dessas singularidades uma solidariedade universal (engajamento) que se cumpre no empreendimento (particular) unido, ou melhor, que também neste (empreendimento) seja possível a todos os homens. Aqui recordamo-nos do “imperativo categórico” kantiano, no qual a ação individual deve assumir um caráter universal. É o humanismo de Simone em que esta “define todo humanismo é o fato de que o mundo moral não é um mundo dado, estranho ao homem e que este deveria esforçar-se por alcançar: é o mundo querido pelo homem na medida em que sua vontade exprime sua realidade autêntica”. (Pg.12). Mas desse pensamento surgem às inquietações que são postas em nosso espírito quanto ao momento de decidir entre bens desejados e liberdade, e entre esta última e as liberdades. Como resolver tal problema. Visto que “não há moral se não há um problema a resolver”. (Pg. 12)? A imperfeição do homem é um fator corroborador para que se crie uma moral, “porque sem fracasso não há moral”. (Pg.06) e é nesse contexto que Simone retirando a moral vigente (religiosa) de seu estágio transcendental recoloca-o no mundo humano, porque a falibilidade é humana e como o ser humano não pode ser encarado como um ser perfeito – dotado de plenipotência – sendo esta uma característica dada a todo divino. Daí a frase Beauvoiriana: “Não se propõe moral a um Deus”. (Pg.06), porque neste (Deus) não existe um ‘vir a ser’ (um aprimoramento de sua condição no mundo ou mesmo de sua essência (caso este a possuísse (!) o que em última analise não teria nenhum sentido)).

Simone, no pensamento exposto acima, mostra-nos que não há um caminho seguro (único), infalível para se resolver tais questões elencadas (listadas), mas temos apenas um compromisso com um interesse verdadeiro (que ache eco no ser) e “que se propõe como fim à ação”. (Pg123).

Não será, concomitantemente, o valor, a idéia (ideologia) ou a moral vigente - do partido, da classe ou do sistema econômico que nos dirá qual deve ser o pressuposto para o caminho seguro a ser seguido pela ação. Pelo contrário, esta está subordinada aos indivíduos concretos – que decidem o que deve ser o ‘quê’ de cada situação ou coisa -. Por isso, “repudiamos todos os idealismos, misticismos etc., que preferem uma forma ao próprio homem.” (Pg.123), logo considerar um “empreendimento em sua verdade, quer dizer, na sua finitude, compreenderá que não tem jamais senão uma jogada infinita a opor aos sacrifícios que reclama, e que se trata de uma jogada incerta. Naturalmente, essa incerteza não deve impedi-lo de buscar seus fins, mas ela exige que ele se preocupe em cada caso em encontrar um equilíbrio entre o fim e os meios”. (Pg.125).

Assim, os meios não justificam os fins. E por isso mesmo “a escolha política é uma escolha ética: ao mesmo tempo em que uma aposta, é uma decisão. Aposta-se sobre as oportunidades e os riscos da medida visada. Mas quais riscos e oportunidades devem ser ou não assumidos em circunstâncias dadas, é preciso decidi-lo sem recurso; e fazendo isso, colocam-se valores”. (Pg.126).

Os valores entram nas escolhas como o fiel da balança, pois há que definir o fim, através das escolhas e dos meios para realizá-los, é como uma tautologia (vício de linguagem que consiste em dizer sempre a mesma coisa, por formas diferentes) escolhendo-se os meios, escolhe-se os fins e vice-versa.

Os valores assumidos estão inflexivelmente atados à ética, ao momento da escolha. Como evitar uma ambigüidade nesses momentos é o que proporá Simone ao explicitar que: “o que se pode pedir é tão somente que essas decisões não sejam tomadas com leviandade e precipitação e que, no conjunto o mal que se inflige seja inferior àquele que se evita”. (Pg.127).

Somente quando o ato ético é analisado sob os auspícios da totalidade dos empreendimentos, é que se pode tentar eliminar o sentido ambíguo que surgem em várias situações complexas. O que – em via de regra – pede uma investigação séria dos meios, fins com o intuito de se evitar prejuízos à individualidade e a coletividade.

Retomando essa idéia de Simone (meios e fins) que iremos considerar como um método proposto. Esta confrontará este método ao praticado pela ciência (algo que parece-nos inusitado no primeiro momento), mas que consistirá “em confrontar em cada caso os valores realizados e os valores visados, o sentido do ato com o seu conteúdo”. (Pg.129). Daí, a dificuldade da política em ser moral, porque o político só visa à ideologia e o partido em que a este (político) estão vinculados. Mesmo sendo esta (ideologia) impossível de abarcar todas as situações em que o mundo humano possa se manifestar. Já nos é sabido que “há em todo empreendimento uma parte de fracasso”. (Pg.129). Fracasso este que em algum momento não corresponderá (em sua totalidade) ao mundo do ser (homem), porque exaurir um ideal é dar a este prioridade cega e nesse sentido será um ‘non-sense’, visto que “uma ação que quer servir ao homem deve, pelo contrário, cuidar de não esquecê-lo no meio do caminho”. (Pg.130). E esquecendo o homem advirá um sentido imprevisto. Na moralidade, como ação proposta por Simone “o fim não é definido de antemão, mas se define ao longo do caminho que a ele conduz. Só a vigilância pode perpetuar a validade dos fins e a afirmação autêntica da liberdade”. (Pg.130).

À tirania e à vontade, que querem ser ‘voz’ imperativa e uníssona no mundo humano, nossa autora, aduzirá que: “a conquista da liberdade é sua única justificação e contra eles deve-se, portanto manter viva a afirmação da liberdade”. (Pg.132). E a liberdade não ‘rima’, nem ‘proseia’ com a tirania, porque os ‘regimes’ – políticos, econômicos, morais querem manter seu ‘status quo’ através da violência e da censura e sob este patamar “é preciso impedir a tirania e o crime de se instalar triunfalmente no mundo”. (Pg132), porque a única afirmação com caráter universalizante é a afirmação da liberdade.

A conclusão não poderia ser outra, senão a que surge como indagativa e inquietante. “Uma tal moral é ou não individualismo?”. (Pg.133).

A essa invectiva – Simone – responde com um ‘salto’ e não uma ‘ponte’ entre o valor que é dado como abstrato à liberdade fundante na existência do indivíduo, na qual além do homem estaria uma idéia de um universal humano. Pelo contrário, pois essa liberdade só se realiza na “relação com o mundo e com os outros indivíduos, ele só existe transcendendo-se e sua liberdade só pode consumar-se através da liberdade do outro”. (Pg.133).

Liberdade tal qual a existência, parecem ser um movimentar-se que surge no/com o ser humano, mas que vai além deste, quando em frente ao outro. E no surgimento do ser no mundo com suas escolhas autênticas - e com o outro - é que encontraremos sua realização. A realização do ser humano, nesse sentido, encontrar-se-á em si, mas realizar-se-á no exterior de si, sob pena de tornar-se um solipsismos (sendo aquela que considera o “eu” como a realidade única no mundo) ou um anarquismo (sendo este a negação do princípio da autoridade, da sociedade – e por extensão do outro). Muito contrariamente viemos analisando, que ser livre é assumir os imperativos e os riscos desta liberdade. Que é construção, é ação, é projeto, é decisão, é empreendimento. “Desde que os homens atribuam um preço às palavras, às formas, às cores, aos teoremas matemáticos, às leis físicas, ás proezas esportivas, ao heroísmo, desde que, no amor, na amizade, eles atribuam um preço uns aos outros, os objetos, os acontecimentos, os homens têm realmente esse preço, têm-no absolutamente”. (Pg.135).

A moral, então, é individualismo, porque se funda no ser humano, através de sua historicidade, do seu estar aí, porque é finita como a existência que é mola-mestra que impulsiona a obra do viver humano. Viver aos auspícios de uma moral – dita – universal é esquecer-se que vivemos nos relacionando, e que, isso significa viver entre outras subjetividades que estão vivas e que não são abstratas, mas “ao contrário, na verdade da vida que sua moral se experimenta e surge então como a única proposta de salvação que se pode dirigir aos homens”. (Pg.136), logo somos livres na escolha de nossa existência que finita abre-se às escolhas infinitas.

Por fim, parafraseio Simone: “E, de fato, qualquer homem que teve verdadeiros amores, verdadeiras revoltas, verdadeiros desejos, verdadeiras vontades, sabe bem que não tem necessidade de nenhuma garantia externa para estar seguro dos seus fins; sua certeza vem de seu próprio impulso”. (Pg.136).

O que Simone de Beauvoir deseja – julgo eu – é uma existência plena, que viva e nutra-se do real, do seu existir no mundo. É um ‘olhar’ que busca além e aquém dos Pirineus, do publicado acerca do desamparo e desespero humano, se auto-confirmando na sua autenticidade. Relacionando a liberdade à transcendência, ou seja, à possibilidade de estabelecer uma ruptura no mundo pela ação do estar aí, Beauvoir identifica na essência do ser livre a incerteza e o risco, bem como o erro que é uma das possibilidades do humano. Liberdade é contingência. Livre, pode-se dar valor e significado a um mundo que em si não os apresenta. Porque, valorar é um atributo humano. Esta, porém, não é tarefa que admita a solidão: seu êxito depende da adesão de outrem. Sem a confirmação do outro, qualquer ação é inútil e absurda. Se abraçada por outros indivíduos, no entanto, pode transcender os limites da finitude da vida humana. É seguir a sua verdade pessoal – não a do ‘arco-íris’ em busca de um ‘pote de ouro’ – bem como realizar o seu humano como relação, como situação e como reconciliação com a imanência original do ser: A SUA LIBERDADE.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

- ARISTÓTELES. A Ética a Nicômaco, São Paulo, Ed. Martin Claret, 2005. 248p.

- BEAUVOIR, Simone de. Moral da Ambigüidade, Rio de janeiro, Ed. Paz e Terra, 1947. Volume 34. 136p.

- BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo, 2. Ed., Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1980. Volume 2. 500p.

- CÍCERO. Dos Deveres, São Paulo, Ed. Martin Claret, 2006. 168p.

- EPICURO. Pensamentos, São Paulo, Ed. Martin Claret, 2006. 152p.

- ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os Lobos, Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1994. 628p.

- MILL, John Stuart. A Sujeição das Mulheres, São Paulo, Ed. Escala, 2006. 62p.

- MILL, John Stuart. Ensaio sobre a Liberdade, São Paulo, Ed. Escala, 2006. 146p.

- SARTRE, Jean Paul. O Existencialismo é um Humanismo. 3. Ed., São Paulo, Nova Cultural, 1987.

- WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, São Paulo, Ed. Martin Claret, 2005. 240p.

- (http://pt.wikipedia.org/wiki/Estoicismo). Dia 12/11/2006.

Enciclopédia:

- GRANDE ENCICLOPÉDIA LAROUSSE CULTURAL. São Paulo, ed. Nova Cultural. 1998.

- HISTÓRIA DA FILOSOFIA. Os Pensadores. São Paulo. Ed. Nova Cultural. 2000.

 

*Licenciado em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia. Especialista em Filosofia Contemporânea

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CURRICULUM VITAE

 

EBERSON LUÍS MOTA TEIXEIRA

End.: Rua Silvio Santos, nº 19. Bairro: Amaralina. Cidade: Bom Jesus da Lapa. Bahia

Cep: 47.600-000. Tel.: (77) 34815683/ 88011127/ 99310067 e-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

FORMAÇÃO ACADÊMICA - TITULAÇÃO

  1. Especialização em Filosofia Contemporânea – Faculdade São Bento da Bahia (2005 – 2007). Carga Horária: 440h.

  2. Licenciatura Plena em Filosofia – Universidade Federal da Bahia (1991 – 1998). Carga Horária: 2580h.

 

ATUAÇÃO PROFISSIONAL - EXPERIÊNCIA EM DOCÊNCIA

1- Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia Baiano. Professor Efetivo DDE atual.

2- Universidade do Estado da Bahia – UNEB/ Departamento de Ciências Humanas e Tecnologia (DCHT – XVII – Bom Jesus da Lapa). Professor Visitante: 08/07/2008 a 28/07/2010.

3- Colégio Estadual Anísio Honorato Godoy – Serra do Ramalho – Professor Nível 03. Classe III (REDA: 11/06/2007 A 01/08/2008) – 14 MESES. D.O 25/05/2007 fls 16.

 

 

Última atualização em 24/10/2011

 

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